Domingo, em uma conversa fiada a caminho do enterro dos ossos do churrasco que comemorou os quinze anos da minha querida Nathalia divagamos sobre minha mãe. Falava-se das oportunidades que ela teve de resgatar dívidas com seus entes mais queridos. Em silencio eu pensava ainda falta alguma coisa.
A tarde corria serena, não havia mais tanta emoção na TV, Galvão torcia pelo Timão mais ainda não era a hora, o Mengão havia escapado da degola, o futebol dava sono. Era hora de voltar para casa, ver um filme, escrever no blog, o que viesse.
E veio a notícia, um telefonema de meu irmão despeja sobre mim a possibilidade de perder a minha mãe, um turbilhão percorre meu corpo, é muito grave, o que quer dizer?!? Começa aí quinze dias de angustia, emoção, tristeza e alegria, ou milagres.
Achava que naquele dia perderia minha mãe para uma parada cardíaca, para um AVC, para um mal que não se sabia qual era, para a vontade de Deus, pois ao médico coube a missão de informar, só um milagre!
Segundos, angustia, minutos, angustia, horas, angustia, perguntas sem resposta, tudo é possível até um milagre. O Milagre começou a se materializar em uma meningite, em um estado de coma que durou três dias, que apertou o meu peito de tal forma que parecia explodir, precisava extravasar. Só o mar, só o Sol poderoso, a se pôr lentamente no horizonte, me dizendo que tudo tem seu tempo, que a vida é uma onda após a outra, mais intensas, mais suaves, infinitas, vindo do horizonte. O Sol se põe, o céu se ilumina de fogo, a noite cai, junto com minhas lágrimas, no hospital minha mãe acorda.
Quarta feira, a vida nos traz surpresas e minha mãe se mostra feliz ao ver seus três filhos, que os caminhos da vida se encarregou de distanciar e uma onda do destino se encarregou de reunir.
Domingo, céu azul, sol, um dia lindo para comemorar a recuperação de minha mãe e encontrar forças para visitar o meu tio Diney, sabedor que a qualquer momento uma onda poderia levá-lo, o seu Sol iria se pôr para sempre. A esperança era que ele ficasse bem. Tive uma única oportunidade na sua dor de lhe dar um conforto maior nesse dia, com uma boa conversa, como um bom ouvinte, pela segunda vez em sua vida ele me indicou caminhos sem dizer nada, saí de lá mais leve.
Céu azul, noite sem nuvens, estrelas à vista, Pearl Jam na apoteose do rock para nos oferecer mais emoção, com a música que aquece a alma, que eleva o coração, na voz de Eddie Veder, na voz do povo, na bandeira do Brasil, que precisa que o povo cante mais alto contra aqueles que não tem coração, que matam em ônibus, que roubam no governo, que desprezam a cidadania e o amor ao próximo.
Quinta feira, minha mãe sai do hospital, em casa aproveita a nova oportunidade que tem e vê em tudo aquilo que era normal uma beleza que ela não percebia, Do outro lado da cidade meu tio Diney vai para o hospital. O Sol poderoso, se põe devagar, esconde-se em uma noite nublada, escura, não se vê estrelas no céu.
Sexta feira, o começo da madrugada, o final de uma vida.
2 comentários:
maravilhoso, carinhoso, triste, esperançoso ... etc... tudo isso descreve o seu texto... Acho que vc dessa vez se superou. Sheila
Só vc mesmo para fazer um comentário desses! Obrigado
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