Estudei em um colégio onde os nomes de seus diretores vinham acompanhados de patentes militares. O uniforme era verde no mesmo tom utilizado pelo Exército Brasileiro. Havia um velho coordenador, do qual não lembro o nome, que usava um corte de cabelo "reco" e o apelidávamos de "Festinha", pois na posição que ocupava era o principal mentor dos eventos festivos que aconteciam no colégio.
Na época vigorava a plena ditadura militar e os eventos relacionados ao regime, chegavam aos meus ouvidos em forma de suspensão da aula. Não preciso mas irei acrescentar que o regime disciplinar no colégio seguia os mesmos moldes.
Um belo dia o Festinha entra em minha sala de aula nos primeiros dias de um ano letivo, pede a toda a turma que fique de pé e cante a todo pulmão todo o Hino Nacional Brasileiro. Confesso, fui pego de surpresa. Ainda que naquela idade já soubesse cantar mais partes do nosso hino, do que a maioria das pessoas de um estádio lotado em jogo da seleção, tremi na base. Cantei o que sabia e o que não havia decorado, fiz o que a maioria dos brasileiros fazem nessa ocasião, um abre e fecha de boca que faria frente aos artistas pop que se apresentam nos programas dominicais de auditório ou a Britney Spears sem o recurso do play back.
O Festinha percebeu e olhando para mim, ameaçou voltar na semana seguinte, quando queria ver a turma afiada no coral, com um castigo pronto para quem não entendesse que "quem sabe faz ao vivo".
Salvo engano, foi meu primeiro ato de patriotismo, aprendi o Hino Nacional, todo, de ponta a ponta, em uma semana. O Festinha nunca voltou para cobrar a lição, mas me deixou a satisfação de poder cantar o Hino Nacional, toda vez que é necessário.
Considero uma pena não exercitar esse dever constantemente e ao longo do tempo me perder entre as estrofes dos seus belos versos. E hoje ao assistir a final do hóquei no gelo entre Canadá e EUA, fiquei impressionado, pois o time inteiro do Canadá que jogava em casa cantou o hino do seu país junto com sua torcida depois de uma vitória épica. No entanto o que vemos dos nossos jogadores, em todos os esportes é um silêncio profundo, "simulador" de respeito e principalmente um desleixo em não se preocupar a aprender os belos versos que retratam a nossa pátria
Deveriam começar a representar bem o nosso país, nossa cultura, cantando com emoção todos os nossos valores, seria um estímulo ainda maior à nossa torcida.
"Festinha" na seleção... só aquelas que a fente ouve falar...